Lat.Bus 2026: o que mudou dentro do ônibus, não embaixo dele
A feira foi vendida como feira de elétrico, mas o que entra na frota este ano é câmera com IA e diagnóstico pelo celular. Os números apresentados e o que conferir na proposta.

A Lat.Bus 2026 fechou no dia 13 de agosto, no São Paulo Expo, e a manchete que saiu em quase todo lugar foi eletrificação. Chassi elétrico de todas as marcas, autonomia, bateria nova, biometano.
Passada a semana, olhando a feira pela ótica de quem administra frota e não de quem compra chassi, a novidade que muda a rotina este ano não é o que move o ônibus. É o que enxerga dentro dele. Câmera com inteligência artificial olhando para o motorista e diagnóstico de falha lido pelo celular entram na operação sem depender de renovar veículo, e foi ali que apareceram os números mais concretos da feira.

O tamanho da feira e por que isso importa para quem não foi
A edição ocupou cerca de 45 mil metros quadrados, aproximadamente 50% a mais que a de 2024, com expectativa de mais de 22 mil visitantes e projeção de cerca de 4.500 ônibus negociados entre chassis e carrocerias, segundo a organização do evento.
O dado interessante para o gestor não é o metro quadrado. É que uma feira que cresce 50% em dois anos costuma antecipar o que vira item de proposta comercial nos doze meses seguintes. O que foi exposto em estande em agosto tende a chegar como linha de orçamento no ano que vem.
A câmera com IA foi a novidade que já entra na frota este ano
A Dahua Technology, junto com o Grupo NSO, levou à feira um ônibus com videomonitoramento embarcado com IA em operação real na Auto Viação Urubupungá, que atende a zona oeste de São Paulo. O sistema detecta automaticamente uso de celular ao volante, sinais de fadiga e desatenção, embarque e desembarque irregular e evasão de receita, além de reduzir pontos cegos.
Os dois números apresentados na operação equipada, conforme divulgado durante a feira:
- queda de 27% nas reclamações registradas no SAC;
- alta de 52,9% nas ocorrências documentadas.
A WDC Networks estreou na feira com proposta parecida, transmitindo imagem em tempo real por 4G ou 5G para a central de controle, com detecção de comportamento do motorista e reconhecimento de eventos como assalto e pânico. A empresa informou que a solução já roda em duas operadoras de São Paulo, sem citar nomes nem divulgar percentuais.

Por que 52,9% mais ocorrências é um número bom
Esse é o número que merece dois minutos de atenção, porque ele parece ruim e não é.
Ninguém instalou câmera e fez o motorista errar mais. O que aumentou não foi o número de ocorrências, foi o número de ocorrências registradas. Metade a mais de evento crítico já acontecia na operação e simplesmente não virava registro, porque dependia de alguém ver, lembrar e anotar.
A câmera não criou ocorrência nova. Ela transformou em documento aquilo que antes era só a versão de alguém.
Quem já apurou acidente sem testemunha sabe o tamanho dessa diferença. É a distância entre concluir uma sindicância com "provavelmente foi assim" e concluir com registro em vídeo e horário. Vale para o seguro, para o processo trabalhista, para a defesa em autuação e para o retorno do que aconteceu ao próprio motorista, que costuma ser a parte mais útil e a menos usada.
A queda de 27% nas reclamações no SAC vem do mesmo movimento. Reclamação de passageiro cai quando o comportamento em campo muda, e o comportamento muda quando existe registro.
A ressalva honesta: esses percentuais foram apresentados pelo próprio fornecedor da tecnologia, referentes a uma única operadora, sem grupo de controle publicado e sem a janela de tempo comparada. Isso não invalida o resultado, mas muda o que você faz com ele. Serve para pedir teste na sua frota com medição combinada antes, não para entrar na planilha de retorno como número seu.
O que exigir do fornecedor antes de aprovar câmera com IA
A feira mostrou a capacidade. A proposta comercial é que vai revelar o que você está comprando. Cinco pontos que separam sistema útil de sistema que vira alarme ignorado:
- Taxa de alerta por motorista por dia. Sistema que dispara demais é desligado na prática, mesmo continuando ligado no contrato. Peça o número médio medido em operação parecida com a sua, não o máximo suportado.
- O que é decidido dentro do veículo e o que sobe para a central. Isso define custo de dados e o que acontece quando a área não tem sinal.
- Quem revisa o alerta antes de virar advertência. Se ninguém revisa, a ferramenta vira punição automática e o motorista passa a operar contra ela.
- Prazo e formato de retenção da imagem. Vídeo que já foi descartado não defende ninguém, e é sempre no dia da sindicância que se descobre a janela real de armazenamento.
- A base legal e o aviso ao motorista. Câmera apontada para pessoa é dado pessoal, com dever de informar e de documentar a finalidade. Combinar isso antes custa muito menos que combinar depois de uma reclamação.
O diesel: o que realmente prometeram de economia
Quem esperava salto no consumo saiu da feira com números modestos, e é bom que sejam honestos.
A Scania lançou oficialmente a linha Super para ônibus, com promessa de até 8% de economia de combustível frente à linha P8 Euro 6 atual, além de até 3% adicionais com o piloto automático inteligente. São motores de 11 litros (350, 390 e 430 cv) e de 13 litros (460 e 500 cv), com a linha anterior seguindo em venda durante 2026 e parte de 2027.
Some a isso o que a Volvo levou para o rodoviário na mesma semana, com promessa de até 3% de economia por leitura de topografia pré-mapeada. O quadro fica claro: ninguém está prometendo virada de jogo em consumo. Está todo mundo raspando ponto percentual em cima de um motor que já é eficiente.
Isso tem uma consequência prática na hora de comprar. Percentual pequeno sobre uma conta grande ainda é dinheiro, mas só se aparece na sua rota. Faça a conta em cima da sua fatura de diesel e do seu perfil de operação antes de aceitar o número do folheto, porque ganho de eficiência prometido em bancada tem o hábito de encolher no relevo real.
A novidade que quase ninguém comentou: falha lida pelo celular
O Marcopolo Torino 2027, nova geração do urbano da marca, chegou com arquitetura eletrônica renovada e diagnóstico feito por dispositivo móvel conectado ao veículo por Bluetooth.
Parece detalhe de ficha técnica e não é. Diagnóstico que depende de levar o veículo até o equipamento da oficina custa fila e custa disponibilidade. Leitura feita no pátio, no celular de quem já está do lado do ônibus, ataca justamente o tempo morto entre a falha aparecer e alguém saber o que ela é.

Elétrico: as autonomias que apareceram
Para quem acompanha a conta de energia contra a de diesel, os números apresentados foram:
| Fabricante | Modelo | Autonomia divulgada |
|---|---|---|
| Volvo | BZR elétrico 6x2, até 15 m e 110 passageiros | até 300 km |
| Scania | K300 elétrico, carroceria de 15 m e até 105 passageiros | 250 a 300 km |
| Volkswagen | e-Volksbus 18H e 22H | 200 a 250 km |
| Mercedes-Benz | eCity, urbano sobre plataforma OF | cerca de 150 km |
O eCity trouxe o dado comercial mais relevante do grupo: custo até 30% inferior ao das outras alternativas elétricas da própria marca, com venda prevista para 2027. A Volvo também apresentou o B320R B100 Flex, que roda com diesel ou B100 em qualquer proporção, caminho mais barato para reduzir emissão sem trocar a infraestrutura do pátio.
No pano de fundo, Anfavea e Fabus usaram a feira para pedir condições equilibradas de competição diante do produto chinês. O contraponto está na planilha de emplacamento: a BYD aparece em segundo lugar em elétricos no ano, com 175 unidades entre janeiro e julho, tendo liderado o mês de julho com 60.
O que levar para a reunião com o dono
Três frases que resumem a feira e que sobrevivem fora do estande:
A tecnologia que entra na frota este ano não exige trocar veículo. Câmera com IA e diagnóstico no celular são retrofit ou item de spec, não renovação de frota. Elétrico continua esbarrando em preço de entrada e infraestrutura de recarga.
Economia de diesel virou disputa de ponto percentual. Entre 3% e 8%, sempre com "até" na frente. Serve para escolher entre dois fornecedores, não para sustentar sozinho um caso de compra.
O ganho mais concreto apresentado não foi economia, foi evidência. Uma operação passou a registrar 52,9% mais ocorrências, e é isso que muda sindicância, seguro e conversa com o motorista.
E fica a pergunta que a feira não respondeu, que é de gestão e não de tecnologia: quando a câmera começar a registrar tudo o que hoje passa em branco na sua operação, esse volume novo vai virar programa de treinamento ou vai virar pilha de advertência? A resposta define se o motorista trata o equipamento como aliado ou como adversário, e ela não vem no manual de nenhum fornecedor.