ADAS e DMS não são a mesma coisa, e confundir isso sai caro na negociação
Um olha para fora do veículo, o outro para dentro. Falham por motivos diferentes, exigem instalação diferente e geram alertas de naturezas incomparáveis. O que perguntar antes de assinar.

Numa mesma proposta, é comum aparecer "kit com ADAS e DMS" como se fossem dois recursos do mesmo produto. Tecnicamente são dois sistemas distintos, com sensores apontando para lados opostos, resolvendo problemas diferentes e falhando por motivos que não têm nada em comum.
Tratar os dois como uma coisa só é a origem de boa parte das frustrações depois da instalação — e de contratos onde você pagou por um e recebeu meio do outro.
A diferença em uma frase
ADAS olha para fora. DMS olha para dentro.
O ADAS, sigla de advanced driver assistance system, é um conjunto de recursos que monitora o ambiente ao redor do veículo: a faixa, o veículo à frente, o pedestre, a distância de seguimento. É a categoria de coisas como alerta de saída de faixa e alerta de colisão frontal.
O DMS, driver monitoring system, monitora o condutor: se o olho está fechando, se a cabeça está caindo, se o olhar saiu da via, se há celular na mão.
Um responde "o que está acontecendo na pista". O outro, "como está a pessoa que dirige". São perguntas independentes, e é perfeitamente possível ter um sem o outro.
Por que eles falham por motivos diferentes
Essa é a parte que muda a negociação, e a que quase nunca é dita.
| ADAS | DMS | |
|---|---|---|
| Para onde a câmera aponta | via, à frente | rosto do condutor |
| O que degrada a leitura | chuva forte, neblina, faixa apagada, sol de frente, para-brisa sujo | óculos escuro, boné de aba baixa, luz de noite, câmera desalinhada |
| Trepidação de pista ruim | atrapalha pouco | gera falso positivo (oscilação de cabeça imita sonolência) |
| Depende de infraestrutura da via | sim (faixa pintada) | não |
| Dado que produz | evento de trânsito | possivelmente dado biométrico |
Duas consequências práticas saltam daí.
Primeira: rota ruim quebra os dois, mas de formas opostas. Numa rodovia com faixa apagada, o ADAS simplesmente deixa de funcionar — perde a referência e cala. Na mesma rodovia esburacada, o DMS começa a disparar em excesso, porque a cabeça do motorista oscila. Um emudece, o outro grita. Se você mediu a taxa de alerta da frota inteira junta, esses dois efeitos se cancelam no relatório e você não vê nenhum dos dois.
ADAS olha para fora. DMS olha para dentro. Um emudece na estrada ruim, o outro grita, e no relatório da frota inteira os dois efeitos se cancelam.
Segunda: o DMS traz uma questão jurídica que o ADAS não traz. Câmera apontada para o rosto, dependendo de como funciona, pode envolver dado pessoal sensível, o que muda o regime de proteção de dados aplicável. O ADAS filma a via. Não é o mesmo problema, e não deveria receber o mesmo tratamento no contrato.
O que perguntar antes de assinar
"O que exatamente está incluído em cada sigla?" ADAS não é um recurso, é uma família. Alerta de saída de faixa é bem diferente de frenagem autônoma de emergência. Peça a lista de funções nominais, uma por linha. É comum que "kit com ADAS" signifique um único alerta.
"Os dois alertam o motorista na cabine, ou só registram para o gestor?" Distinção enorme e frequentemente ambígua na proposta. Alerta que só chega ao gestor no dia seguinte não previne nada; ele documenta. Documentar tem valor, mas é outro produto e deveria ter outro preço.
"Posso configurar sensibilidade separado para cada um?" Se o ajuste é único para o conjunto, você vai ficar preso: baixar a sensibilidade para parar o excesso de DMS na pista ruim vai cegar o ADAS junto.
"Qual a taxa de alerta por hora, medida, para cada um separadamente?" Número agregado esconde exatamente o problema descrito acima. Peça separado, ou o dado não serve.
"O DMS faz identificação do condutor pelo rosto?" Por escrito. É essa resposta que determina se você está lidando com dado biométrico, e isso muda o que precisa estar documentado antes de ligar o equipamento.
"O que acontece em trecho sem faixa pintada?" Se a resposta for evasiva, o ADAS provavelmente vai passar boa parte da sua operação em silêncio, e você vai concluir que "não dispara nada porque a frota é boa".
Qual dos dois primeiro, se o orçamento é um
A resposta honesta é que depende do seu perfil de sinistro, e você tem esse dado.
Se os seus eventos são majoritariamente colisão traseira e saída de pista, o ADAS ataca a causa mais direta. Se são eventos noturnos, de madrugada, em trecho longo e monótono, a fadiga é a suspeita principal e o DMS chega mais perto.
O que não recomendo é decidir por qual sigla soa mais moderna, nem comprar os dois mal configurados porque vinham no mesmo pacote. Meio ADAS e meio DMS, ambos com sensibilidade errada, costuma render menos que um dos dois bem instalado.
O resumo
São dois produtos. Falham diferente, instalam diferente, exigem contrato diferente e deveriam ter preço e métrica separados.
Se a sua proposta trata os dois como uma linha só, a primeira coisa a pedir é que sejam separados — inclusive no preço. A conversa fica melhor imediatamente, e você descobre rápido se do outro lado tem alguém que conhece a diferença.